Andar com fé eu vou,

Que a fé não costuma faiá...

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Tem dias que o câncer me pega pelos cabelos e me joga no chão. Talvez não seja o câncer em si, mas os efeitos do tratamento. Tem dias que é doloroso permanecer sendo forte; há um mês atrás eu não me imaginaria dizendo isto, mas no câncer, como na vida, as coisas mudam repentinamente. Minha última quimio foi há doze dias e não teve um dia sequer que o cheiro e o gosto do protolo ABVD não ficasse correndo por dentro de mim, causando enjôo e dor no corpo. As pessoas permanecem tentando me convencer de que sou forte e vou superar tudo isto, mas a verdade é que quando o seu corpo está incomodado seu emocional quer gritar. Tenho vontade de vomitar um monte de palavras ofensivas em quem me deseja calma e força sem ter esse gosto correndo por dentro do corpo todo santo dia. Tenho vontade de fugir para um país desconhecido e viver fingindo que não tenho nada disso. Tudo começou há três semanas quando busquei o PetCt e explodi de felicidade porque o tumor não tem mais nenhuma atividade cancerígena, pensei, em um mês, no máximo, isto terá acabado. No mesmo dia, a tarde, tudo terminou quando a médica me disse que continuaremos por alguns meses por garantia. Certamente ela que estudou muito para isto, sabe os motivos científicos. Certamente ela que nunca viveu isso na pele não imagina o burraco emocional que se abre com a previsão de MESES de quimioterapia. Acho que estou sentindo falta da terapia, mas tenho certeza que a esta altura o dinheiro não dá mais para isso :( Ainda bem que desabafar é gratuito, e hoje, foi o único remédio.

Paro por aqui, já que o choro acabou.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

As novas revelações, são velhas!

Estive ausente nestes últimos dias por uma sequência de ocorridos. 1. A Manuela ficou doente e precisou de muitos cuidados. 2. Ela se recuperou e eu fiquei exausta, logo, fui procurar abrigo na praia, na casa da minha mãe. 3. Alguns acontecimentos me fizeram pensar tanto, mas tanto, que sabe quando a gente precisa ficar quieto para não falar demais?
Pois é, passada a temporada de breve tempestade, aqui estou eu, afinal, é preciso colocar os novos monstros para fora.
Esta semana eu estive pensando sobre o quanto a gente adoece quando nos permitimos aceitar situações inaceitáveis. Como quando nos dizem um absurdo e ficamos quietos para sermos educados. Quando percebemos a maldade em alguém e preferimos não acreditar e manter o convívio. Quando se decide esquecer o mal que lhe fazem, e a situação se repete.
O câncer não é algo tão terrível quanto a falta de respeito consigo, e olha, posso falar disso com propriedade. O câncer na verdade é um antidoto. Quando nos deparamos com esta situação percebemos que ninguém controla a própria vida, ninguém tem certeza de por quanto tempo estará aqui, e, por isto, nos força a perceber que é preciso se colocar, sim, em primeiro lugar. Para mim, este é um exercício completamente novo. Sempre tentei agradar os outros. Chego o pensar que este tumor saltou no meu pescoço revelando os gritos que engoli e calei. Me recordo até com clareza de um dia, no ano passado quando, uma única vez, em uma situação muito desagradável e constrangedora eu deixei um grito sair e disse a alguém que queria jogar uma bomba no lugar em que sentia aquela pressão sob minha cabeça. Fui repreendida. Chorei de arrependimento. Me calei constrangida e acuada. Calei este em meio a tantos outros gritos que nunca sequer experimentaram sair. Como muitas que conheço, me tornei especialista na arte de dar mais importância aos desejos dos outros do que aos meus. Deixar que cuidem de mim já é um desafio, mesmo na atual situação. Esse caminho sem volta que tem me transformado profundamente me ensinou a abrir mão de muitas coisas, mas muito mais do que isso, me ensinou a me permitir. A desfrutar do que me faz bem com intensidade, e a dizer não com entonação. É claro que, como qualquer pessoa em tratamento -da alma- ainda há dias em que choro por coisas banais, dias em que fofocas e dedos apontados me preocupam mais do que ter um câncer no sistema linfático; mas estou aprendendo e evoluindo no caminho amor próprio.
Estes dias eu ouvi alguém comentar que uma alma sem amor, disse, sobre a minha doença, que cada um tem o que merece; por isso alguns têm gripe e eu... Bem, eu tenho a chance de me reinventar, de aprender, de me transformar e SER um ser humano melhor, bem diferente de você.  É fácil mostrar sorrisos e aparentar alegria quando tudo parece de acordo em nossas vidas; quero ver se reinventar, perdoar, amar e sorrir quando todas as certezas desaparecem e você percebe que não tem o controle de nada. Nunca teve e ninguém tem. Aí, queridos amigos, é só o amor que sobra. Primeiro, aquele que devemos ter por nós mesmos!

domingo, 21 de agosto de 2016

Vontades...

Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo, temos todo tempo do mundo...
Eu acho que ainda não mencionei nada a respeito, mas a médica que me acompanha solicitou, no início do tratamento, que eu fizesse um acompanhamento com vários profissionais durante este período: nutricionista, cardiologista, psicóloga... E lá fui eu. Entre as tantas coisas positivas que o tratamento tem me proporcionado - sim, existe um lado bom em tudo nesta vida - está a terapia. Esta semana eu falei à terapeuta que estou confusa com relação aos meus planos, porque ansiosa que sempre fui, tenho sentido necessidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Ao término, o pensamento que ela me trouxe foi profundo e me fez refletir por vários dias; ela disse: A doença, que é a eminência de morte, nos traz sede de vida. É verdade! Mas, não deveria ser apenas a doença, não é? Estar vivo é a eminência da morte, afinal, quem não está sujeito a morrer subitamente e não ver um novo dia amanhecer? 
Pois bem, este pensamento é transformador, acreditem, e tenho descoberto que ele tem o poder de transformar cada segundo de vida. Estou com 28 anos, duas filhas bebês e câncer. Tinha tudo para ser terrível. No entanto, nunca acordei tão bem humorada em minha vida como nestes dias. Nunca cantei tanto no chuveiro. Nunca me senti tão calma e paciente. Nunca havia sentido tanto prazer em estar em casa quando não posso sair, ou em transfomar um café na padaria comigo mesma em um momento ímpar. Já fiz até uma lista de coisas que preciso começar a mudar em mim e tem parecido tarefa fácil diante da nova Aline que tenho me tornado. Tem também a lista dos planos que preciso tirar da gaveta, meu Deus, como eu posso ter me conformado em nunca ter aprendido a tocar violão se é algo que tenho tanta vontade em fazer? Porque eu nunca dediquei um tempo do meu dia pra simplesmente ficar em silêncio e pensar no que eu quiser, sem me culpar por não estar estudando, produzindo ou arrumando a casa?
É difícil aceitar isto, mas é necessário: Nenhum plano pode ser guardado na gaveta porque amanhã pode ser tarde demais. 
Vou concluir citando uma música da Pitty que diz: " não deixe nada pra depois, não deixe o tempo passar, não deixe nada pra semana que vem, porque semana que vem pode nem chegar..."

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

1° Quimio

Na última sexta -feira passei por minha primeira quimioterapia. Eu disse que iria contar aqui como foi e o que senti, mas, antes disso, acho que é importante informar sobre o que é, de fato, a quimioterapia. Percebi que muita gente quando me pergunta como foi imagina algo semelhante a uma sessão de choques  elétricos pelo corpo, longe disto, a realidade é essa: A quimioterapia é uma combinação de medicações pensadas para cada tipo de câncer, com o objetivo de alterar o DNA das células malignas, elimina-las, etc. Na prática, é como ser medicada com soro. Eu tive a sorte de colocar o catéter antes da minha primeira quimio, e desta forma, ninguém precisou ficar procurando veia em mim. Puncionaram o catéter, colocaram uma medicação forte para enjôo, corticóide e depois inicia meu protocolo de quatro medicações específicas para o Linfoma; é o ABVD. Depois de iniciado descobri que o que chamam de quimio vermelha é uma das medições do meu protocolo. A mais chatinha. Arde um pouco, o gosto e cheiro são fortes. Ela é a responsável pela queda dos cabelos, por isto quem faz quimio de outro protocolo, sem a medicação vermelha, pode não perder cabelos. Depois de quatro horas recebendo esta medicação você pode ir embora e deve voltar após 15 dias, se os exames de sangue estiverem ok!
Fui embora com uma sonolência imensa que eu imagino ser devido a medicação para enjôo. No dia da quimio eu senti muita tontura e uma sensação estranha no estômago, como se tivesse comido um boi inteiro e ido dormir. Mas foi só. No sábado passei o dia com a boca salivando, e o olfato me fazendo enjooar hora ou outra. Domingo foi uma beleza, comi bem e só tive enjôo no final do dia, mas isso porque eu fiquei nervosa (eu me conheço e está é uma reação normal, minha, quando estou nervosa). A enfermeira disse que normalmente os efeitos aparecem a partir do terceiro dia, até o sétimo, quando a medicação tem seu pico de efeito no organismo. Estou torcendo para que eu seja uma excessão e isso seja tudo.
Agora que a quimioterapia iniciou tenho uma série de acompanhamentos a fazer, nutricionista, psicóloga, oncologista, hematologista... Hoje vou descobrir o que (tudo) precisa mudar na minha alimentação. Depois venho contar mais sobre como tem sido.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Amanhã...

Exatamente sessenta e seis dias de pós parto e lá vou eu para um desafio tão desconhecido quanto o rosto de um filho que está para nascer. É amanhã. A primeira das doze quimioterapias que estão previstas para o meu tratamento. Eu adoraria poder traduzir em palavras o que estou sentindo, mas não é possível, pois nem eu mesma consigo definir... Sinto que estou ansiosa, mas não nervosa. Receosa, mas não com medo. Dentro de mim alguma coisa está gritando, mas externamente meu semblante está em paz.
Passei a semana tentando definir o que faria nas quase quatro horas que estarei lá colocando esse veneno, leia-se remédio, para dentro do meu corpo. Pensei em mil coisas. Decidi dedicar este tempo ao conhecimento das sensações e reações do meu corpo e organização dos meus sentimentos, apenas. Talvez eu ouça música. Muito provavelmente eu escreva cada sensação e transforme em texto depois, afinal, como bem diz minha tatuagem antiga: tudo se decompõe em palavras.
Hoje uma pessoa me disse que eu fui corajosa por cortar meu cabelo e eu prontamente lhe respondi que a necessidade faz a coragem. É bem assim que estou me sentindo com relação a amanhã. Nunca imaginaria que passar quatro horas com uma injeção de medicação, prestes a me dar reações adversas, não me causaria temor. Eu não imaginaria até que esta fosse a realidade eminente. É o famoso: é o que tem pra hoje! (Risos) A minhas primeiras grandes superações foram estas: pânico de médico e de injeção. Aplausos.
Amanhã será um novo passo. Amanhã será um grande passo nesta caminhada que, embora não facilmente, será superada e me permite no trajeto tantas aprendizagens. Coberta desta coragem que a necessidade me presenteou, vou viver esta experiência e inclui-la no meu livro de histórias para contar, pois bem sei que um bom livro precisa dos momentos mais árduos para dar sabor e leveza aos momentos corriqueiros. Depois de amanhã eu nunca mais terei medo da palavra quimioterapia. Depois de amanhã eu nunca mais reagirei com sentimento de dó àqueles que a enfrentam. Depois de amanhã, farei parte do grupo dos corajosos que enfrentam suas batalhas, com o medo guardado no bolso e o pensamento repleto de incertezas, mas que, sobretudo, vão em frente.
Talvez amanhã eu vá fraquejar e desacreditar de tudo que já escrevi, mas só vou me permitir isso amanhã, hoje não...
E será sempre somente permitido amanhã.

domingo, 7 de agosto de 2016

Uma nova história Deus tem pra mim...

É, este texto tem o título de um louvor evangélico, e é bem verdade, eu não sou evangélica. Mas este texto é sobre como Deus nos fala através das pessoas e como isto tem sido presente em minha vida.
Eu já contei pra vocês que muita gente tem me procurado para desejar coisas boas - algumas até para reaver antigas situações, ou pedir perdão como se eu fosse morrer amanhã - é até um pouco assustador, porque surge gente todo o tempo. O que eu não contei pra vocês é que eu havia perdido a fé nas pessoas. Eu não mencionei que há meses atrás, repleta de desilusões pessoais no ambiente de trabalho, e até na minha família, eu perdi a fé nesse negócio de amor ao próximo, de doação, amizade e tudo o mais que possa depôr a favor das relações humanas de afeto e verdade. Pra me chacoalhar, confesso, teria que ser uma mão pesada. Talvez ela tenha vindo em forma de doença.
Então a doença chegou e muita gente passou a se aproximar. E quando eu digo muita gente, estou falando de quem não se espera, uma vendedora da loja que frequento que ora por mim e me manda louvores diariamente, estou falando da ajudante de uma tia que mora no interior do Rio Grande do Sul e me envia recados de energia, gente que não me abria um sorriso nos corredores da faculdade, gente que não me olhava nos olhos, mães das amiguinhas da minha filha com quem nunca conversei, ex namorada do primo do meu esposo... MUITA GENTE, e uma coisa em comum: elas dizem que me admiram. Que sempre admiraram. Eu? Tão pequena e insignificante? Por que haveriam de me admirar? Onde estavam todas estas pessoas ontem, antes de tudo isto começar?
Pois é, elas estavam ali, mas os meus olhos já não podiam enxerga-las. Podia ver meus poucos amigos, repletos de doçura se apresentando diariamente, pois sabem de sua importância para que eu esteja em pé, e até amigos amados com quem a correria já não permitia tanto contato, estes eu sabia ver. Mas, a todos os outros não.
Que pena. Quanta coisa devo ter perdido. Que sorte. Quanta coisa não vou mais perder.
O que eu vou dizer agora pode soar bem clichê, fazer o quê, é a verdade que se apresenta para mim. Hoje refleti sobre estas pessoas que consegui enxergar; e ouvi a voz do meu coração, que se não for Deus, deve ser algum enviado seu. Interpretei a mensagem e percebi que é isto que eu quero ser. É isto que eu quero ter. Muito mais do que o título de super mãe, mulher bonita, organizada com um mestrado no jaleco. Eu quero ser o conforto de quem não tem batalhas tão maiores do que levar o dia a dia com um sorriso. Quero fazer a moça do caixa se sentir especial. Quero mostrar para uma senhora que sua história de vida tem valor. Desta forma, eu posso ver, tudo vai se encaixando. A vida tem até mais cor. Fazer cada minuto de vida se multiplicar na vida do outro. Afinal, é só isso que somos: vida.

sábado, 6 de agosto de 2016

Mudar!

A mudança é algo assustador, não é? Pra mim sempre foi. Recebi orientação médica para cortar o cabelo antes de iniciar a quimioterapia, pois sem tanto peso a queda pode ser menor. Coloquei o catéter ontem e iniciarei a quimioterapia esta semana, por isto, hoje vim cortar o cabelo. Chegou a hora. Não vou fazer cena de novela e já passar a máquina ouvindo Whitney Houston e chorando horrores, embora tenha tido um pouquinho de vontade. Vim ao salão repetindo mentalmente o mantra de que é só uma fase e cabelo cresce, mas, meu coração foi ficando apertadinho em pensar que tirariam de mim algo que tenho tanta estima e apego, sim, meu cabelo. Meu cabelo é um pouco da minha história e um tanto da minha personalidade. Em nenhum momento desta minha vida de 28 anos eu o quis curto, porque eu imaginava que desta forma ele refletiria uma Aline diferente daquela que eu me sinto por dentro. Ser comprido para mim, me apresenta ao mundo como alguém de alma jovem, que se recusa a mudar ou envelhecer, mesmo casada, dois filhos, cheia de boletos...
Um novo momento da minha vida se apresenta e, por isso, um novo um novo corte se faz necessário, para eu exteriorisar fielmente quem tenho me tornado. Será que é por isto que os cabelos caem neste tratamento? Seria um bom motivo!
Nesta altura, enquanto escrevo, ele já está cortado, estou esperando a química finalizar. Tem um quadrado bem grande engasgado na minha garganta, mas como ensinam minha filha na escola, podemos chorar por dor, emoção ou saudades e, definitivamente, estes não são meus motivos. É birra mesmo. Não pude segurar firme e não soltar um brinquedo que eu gostava muito na hora em que era preciso solta-lo. Não queria ficar no desconhecido primeiro dia de adaptação desta nova escola da vida. Mas o recreio chegou. O cabelo ficou pronto, e afinal, não é tão ruim assim. Meus olhos são os mesmos que falam sem que eu precise abrir a boca. Meu sorriso ainda tem a mesma proporção de verdade. Minhas bochechas ainda coram por vergonha ou nervosismo. Minha personalidade não mudou, nem a forma de me apresentar pra esse mundão. É só um novo recorte de mim. É só uma descoberta de mais uma Aline que vive aqui, e que vive, a cima de tudo!

Só para constar, voltando à reflexão sobre dor... Hoje foi mais doloroso do que ontem, no procedimento cirúrgico. Mas o que fiz ontem vai me deixar uma cicatriz e hoje, fiquei assim. Tem dores que têm suas recompensas...

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O que é a dor?

Será a dor um sentimento? O que define a dor? Como se mede? Como se explica, sendo ela pessoal e intransferível? É, certamente, relativa. A dor de perder um dente e a dor de perder um ente querido. A dor do coração e a dor no coração. Não, não há definição. Hoje fiz a biópsia na medula e, gente, dói. Quanto? Não sei. É a dor de uma agulha desgraçada que vai até o seu osso e raspa ele, dá enjôo, dá raiva, mas, como toda dor, passa. A certeza da dor é que uma hora ela passa, seja de qualquer natureza. Eu ainda  não posso falar com propriedade sobre ela. Houve dias nesta minha vida que a dor de uma angústia, daquelas que a gente nem sabe explicar de onde vem, foi bem maior que esta dor física.
Desde ontem, quando decidi compartilhar no Facebook o link do meu blog, e as pessoas passaram a ler meus sentimentos descritos aqui, eu recebi muitas mensagens de gente que se pôs no meu lugar. Passei a refletir sobre sentirmos a dor do outro. Pra mim - sem demagogia - a dor do outro sempre foi maior do que as dores que sinto por situações que vivi... Deve ser porque consigo vitimizar os outros, mas nunca a mim mesma. Olhando de fora, uma conhecida qualquer, eu diria: - Meu Deus, que dor, tão nova, tantos sonhos, dois bebês e tendo que enfrentar essa doença terrível... Ver uma amiga viver isso me causaria muita dor. Mas, sendo comigo, ok! Eu me conheço, e Aline Salvadori não veio ao mundo pra ficar sentindo dor por qualquer obstáculo que exista na sua existência. Falar sobre a doença com a minha mãe dói muito mais, porque sei hoje a dor de uma mãe. Só quem é mãe sabe a intensidade que tem em nós a dor de um filho. No dia do meu diagnóstico minha mãe me perguntou como eu estava me sentindo e eu respondi: Feliz, por não ser com as minhas meninas! Nessa situação toda, parar de amamentar, por exemplo, doeu bem mais que raspar o osso. Que por sua vez, talvez doa menos que raspar o cabelo! O que eu gostaria mesmo de saber é se a dor cumpre algum papel especial em nossas vidas, e tenho pensado que sim. Fundamental. O papel de nos chacoalhar com força. O papel de nos mostrar que não somos nada. E, principalmente, nos dar uma bela lição sobre ser tudo transitório, passageiro. A dor não é eterna, e esta vida, que pena, também não é!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Sobre câncer e amor

Desde que a suspeita da doença iniciou eu partilhei minhas primeiras angústias com os amigos mais próximos, além da minha família. Não houve um só dia em que não rececebesse mensagens e ligações desde a hora que acordo até a hora em que vou dormir. Descobri hoje que este é o motivo de eu não ter chorado ou me velado quando tudo veio a tona. Hoje eu disse a palavra câncer três vezes -acredite, isto é bem difícil- e não doeu por nenhum minuto, porque estou convencida de que ele não é um fim, e sim um começo. Um re começo.
É estranho dizer isto, mas, por maiores que sejam os obstáculos que terei que passar, sei que o amor me sustentará. Sempre sustenta. O amor por escrever tem me ajudado até aqui, continuemos.
Amanhã vou descrever a biópsia da Medula, com todo o amor que puder. Beijos

sábado, 30 de julho de 2016

Agora que sei de tudo,

Sinto que não sei mais nada. Recebi ontem a ligação da médica, ela recebeu o resultado da imunohistoquimica e sabemos agora o nome da doença, o subtipo, o estágio. Ela disse que na próxima semana iniciaremos a quimioterapia. Ela me disse a palavra quimioterapia e o filme começou a rodar na minha cabeça. Parece mais fácil aceitar agora que sei exatamente o que está dentro de mim e a única pergunta que ainda me vem é: por que agora? Agora que meu bebê acabou de chegar, agora que tenho duas filhas que tanto precisam de mim? E a resposta é exatamente esse: porque agora tenho duas filhas que precisam de mim, haveria um motivo maior que este para encontrar força e lutar? Com certeza não. Estou pensando em mudar meu cabelo radicalmente a cada semana, até que não reste um só fio; é engraçado como isto me anima porque começa aí a raiz da coragem, fazer tudo aquilo que nunca antes me encorajei a fazer. Eu ainda não sei (acho que não tem como saber) por quanto tempo esta batalha há de ser enfrentada; mas eu desejo, sinceramente, que a cada dia eu amanheça com essa vontade de mostrar pra mim mesma que sou muito mais forte do que pensava. Cada dia mais. Agora não sei mais como serão meus dias e a estabilidade me foi tirada, mas não é assim que nos redescobrimos? Quando o chão desaparece? Minha tia me deu um conselho de três palavras que me sooa como um lema: enfrente, em frente! É só o que sei que vou fazer!

terça-feira, 19 de julho de 2016

Enquanto isso

Do lado de dentro do castelo, tanta coisa passa pela minha cabeça. Forte, eu sou, mas tenho notado em mim uma racionalidade desconhecida. Eu estou viva, não é mesmo? E enquanto estiver, sinto que posso me reinventar. Enquanto de nada há certeza, quero me certificar de que estou vivendo como gostaria de estar; só que esta é, justamente, a certeza que não tenho. Sim para minha família, meu amor, minhas filhas. Não para o resto - meus valores, meus planos, profissão -. Estou em processo de check up. Preciso me analisar de perto e descobrir, na raíz deste problema, o que eu não enxergava de errado em mim e na minha vida. Conversar comigo assim, enquanto escrevo, parece tão sábio, mas tem reflexões que são bem mais profundas, para as quais é necessário fechar as portas e, quietinha no escuro, refletir e reinventar. Enquanto isto, do lado de fora, permaneço a mesma.

domingo, 17 de julho de 2016

Hoje foi um pouco mais difícil que ontem. A dor física - pós cirúrgica - parece menor, mas o emocional pegou. Me vi no meio do poço, questionando o porquê desta situação, questionando o que eu fiz, questionando a minha força. Me permiti chorar na frente de quem quero parecer mais forte: meu esposo, meus pais. Por alguns momentos minha casa esteve em clima de funeral... Cheiro de café, as pessoas lá embaixo falando sobre as expectativas de vida com a doença, e eu aqui em cima, deitada, na inércia. E esse é só o meio do poço, eu sei disso. Sei também que vai ser importante me permitir chegar lá embaixo, chorar com aquela vontade de tirar o coração pra fora pra tentar fazer parar de doer lá dentro - como quando meu Dindo se foi- e, então, deixar perceber que não há mais lágrimas, porque não há mais o porquê chorar. Tudo já está resolvido, é só preciso aceitar, e lutar. É provável que, no fim da batalha eu perceba que nunca estive mais viva! Eu acredito nisso: a chegada será enriquecedora... O caminho é que me amedronta. O caminho é o desconhecido. Da chegada eu tenho certeza.

sábado, 16 de julho de 2016

Primeiro dia

Fiz a cirurgia (para retirada do tumor) ontem. Não foi possível retira-lo, devido ao fato de estar enraizado. Um pedacinho dele foi para biópsia. Não sei ao certo o tamanho, com certeza menor do que a minha esperança em ouvir que é benigno, que não é nada, que foi um sonho.
Estou, exatamente há duas semanas tentando digerir todas as informações que tenho recebido. Desde os resultados dos exames laboratoriais, à análise minuciosa dos exames de imagem, muita pesquisa no Google, nem uma lágrima até agora. Eu sei exatamente o que estou prestes a passar, mas por dentro me sinto anestesiada. Neste momento sinto que a única coisa capaz de me desestabilizar é ouvir a palavra quimioterapia. Quimioterapia. Essa porcaria de palavra não sai da minha cabeça. Morro de medo de cirurgia. Prefiro fazer cem a passar pelo que imagino ser a quimioterapia.
Eu estou deitada no meu quarto, me recuperando da cirurgia, e aqui em casa, lá embaixo, a vida segue normalmente. O Guilherme e meus pais estão bebendo, ouvindo música, cozinhando... Alice está brincando, a Manuela dormindo, chego a imaginar que a vida possa permanecer a mesma se eu fingir que não tenho nada. Acho que é o que estou fazendo. Até quando?

Confusão

Primeiro round: Acordei para amamentar, dor no pescoço, apalpa o pescoço - caroço. Ele nunca esteve ali. De onde veio? Deve ser íngua. Volta a dormir.
Segundo round: Vai ao médico examinar - não é íngua - deve ser um Bócio. Tireóide normal, não é Bócio. Corre em outro médico.
Terceiro round: Faz ecografia. É uma massa. Faz tomografia, sugestivo de doença linfoproliferativa. Faz biópsia, tumor enraizado.
Nocaute: É câncer.

Pausa para digerir.