Andar com fé eu vou,

Que a fé não costuma faiá...

sábado, 30 de julho de 2016

Agora que sei de tudo,

Sinto que não sei mais nada. Recebi ontem a ligação da médica, ela recebeu o resultado da imunohistoquimica e sabemos agora o nome da doença, o subtipo, o estágio. Ela disse que na próxima semana iniciaremos a quimioterapia. Ela me disse a palavra quimioterapia e o filme começou a rodar na minha cabeça. Parece mais fácil aceitar agora que sei exatamente o que está dentro de mim e a única pergunta que ainda me vem é: por que agora? Agora que meu bebê acabou de chegar, agora que tenho duas filhas que tanto precisam de mim? E a resposta é exatamente esse: porque agora tenho duas filhas que precisam de mim, haveria um motivo maior que este para encontrar força e lutar? Com certeza não. Estou pensando em mudar meu cabelo radicalmente a cada semana, até que não reste um só fio; é engraçado como isto me anima porque começa aí a raiz da coragem, fazer tudo aquilo que nunca antes me encorajei a fazer. Eu ainda não sei (acho que não tem como saber) por quanto tempo esta batalha há de ser enfrentada; mas eu desejo, sinceramente, que a cada dia eu amanheça com essa vontade de mostrar pra mim mesma que sou muito mais forte do que pensava. Cada dia mais. Agora não sei mais como serão meus dias e a estabilidade me foi tirada, mas não é assim que nos redescobrimos? Quando o chão desaparece? Minha tia me deu um conselho de três palavras que me sooa como um lema: enfrente, em frente! É só o que sei que vou fazer!

terça-feira, 19 de julho de 2016

Enquanto isso

Do lado de dentro do castelo, tanta coisa passa pela minha cabeça. Forte, eu sou, mas tenho notado em mim uma racionalidade desconhecida. Eu estou viva, não é mesmo? E enquanto estiver, sinto que posso me reinventar. Enquanto de nada há certeza, quero me certificar de que estou vivendo como gostaria de estar; só que esta é, justamente, a certeza que não tenho. Sim para minha família, meu amor, minhas filhas. Não para o resto - meus valores, meus planos, profissão -. Estou em processo de check up. Preciso me analisar de perto e descobrir, na raíz deste problema, o que eu não enxergava de errado em mim e na minha vida. Conversar comigo assim, enquanto escrevo, parece tão sábio, mas tem reflexões que são bem mais profundas, para as quais é necessário fechar as portas e, quietinha no escuro, refletir e reinventar. Enquanto isto, do lado de fora, permaneço a mesma.

domingo, 17 de julho de 2016

Hoje foi um pouco mais difícil que ontem. A dor física - pós cirúrgica - parece menor, mas o emocional pegou. Me vi no meio do poço, questionando o porquê desta situação, questionando o que eu fiz, questionando a minha força. Me permiti chorar na frente de quem quero parecer mais forte: meu esposo, meus pais. Por alguns momentos minha casa esteve em clima de funeral... Cheiro de café, as pessoas lá embaixo falando sobre as expectativas de vida com a doença, e eu aqui em cima, deitada, na inércia. E esse é só o meio do poço, eu sei disso. Sei também que vai ser importante me permitir chegar lá embaixo, chorar com aquela vontade de tirar o coração pra fora pra tentar fazer parar de doer lá dentro - como quando meu Dindo se foi- e, então, deixar perceber que não há mais lágrimas, porque não há mais o porquê chorar. Tudo já está resolvido, é só preciso aceitar, e lutar. É provável que, no fim da batalha eu perceba que nunca estive mais viva! Eu acredito nisso: a chegada será enriquecedora... O caminho é que me amedronta. O caminho é o desconhecido. Da chegada eu tenho certeza.

sábado, 16 de julho de 2016

Primeiro dia

Fiz a cirurgia (para retirada do tumor) ontem. Não foi possível retira-lo, devido ao fato de estar enraizado. Um pedacinho dele foi para biópsia. Não sei ao certo o tamanho, com certeza menor do que a minha esperança em ouvir que é benigno, que não é nada, que foi um sonho.
Estou, exatamente há duas semanas tentando digerir todas as informações que tenho recebido. Desde os resultados dos exames laboratoriais, à análise minuciosa dos exames de imagem, muita pesquisa no Google, nem uma lágrima até agora. Eu sei exatamente o que estou prestes a passar, mas por dentro me sinto anestesiada. Neste momento sinto que a única coisa capaz de me desestabilizar é ouvir a palavra quimioterapia. Quimioterapia. Essa porcaria de palavra não sai da minha cabeça. Morro de medo de cirurgia. Prefiro fazer cem a passar pelo que imagino ser a quimioterapia.
Eu estou deitada no meu quarto, me recuperando da cirurgia, e aqui em casa, lá embaixo, a vida segue normalmente. O Guilherme e meus pais estão bebendo, ouvindo música, cozinhando... Alice está brincando, a Manuela dormindo, chego a imaginar que a vida possa permanecer a mesma se eu fingir que não tenho nada. Acho que é o que estou fazendo. Até quando?

Confusão

Primeiro round: Acordei para amamentar, dor no pescoço, apalpa o pescoço - caroço. Ele nunca esteve ali. De onde veio? Deve ser íngua. Volta a dormir.
Segundo round: Vai ao médico examinar - não é íngua - deve ser um Bócio. Tireóide normal, não é Bócio. Corre em outro médico.
Terceiro round: Faz ecografia. É uma massa. Faz tomografia, sugestivo de doença linfoproliferativa. Faz biópsia, tumor enraizado.
Nocaute: É câncer.

Pausa para digerir.